Ativistas e refugiados protestam contra o Pacto Europeu para Imigração e Asilo Político, na Plaza de Callao, em Madrid, na Espanha, em 11 de abril de 2024 [Francesco Militello Mirto/NurPhoto via Getty Images]

Imigrar para viver: os novos rostos da Espanha

Com 87% do crescimento populacional impulsionado por estrangeiros, o país vive o paradoxo de precisar da força migrante enquanto impõe barreiras invisíveis à integração e ao trabalho digno

A decisão

A decisão de partir, sair de seu país e cruzar o Oceano Atlântico para começar uma vida nova não surge da noite para o dia. Embora em alguns casos seja de fuga urgente, muitas vezes o movimento é maturado diante de expectativas de futuro, crescimento e uma melhor qualidade de vida.

Para a dominicana Darianyi Araujo Valdez, a Espanha sempre foi um eco constante: estava nas histórias contadas à distância e na presença de familiares que já viviam no país. Seu pai logo que nasceu, se mudou para Madri, e sua mãe logo se mudou também. 

O que a jovem não previa, aos 17 anos, era que a distância entre “chegar” e “pertencer” seria medida em resiliência emocional, e não apenas em quilômetros.

Darianyi cruzou o oceano pela primeira vez com objetivos claros: viver com seus pais (um desejo de infância), obter a nacionalidade e estudar. Seus pais, residentes veteranos na Espanha, já haviam vencido o lento processo burocrático para obter a nacionalidade espanhola, o que facilitou a documentação da filha.

Apesar disso, a documentação em mãos não foi suficiente para silenciar o choque cultural de uma adolescente. Os primeiros meses foram marcados por uma solidão e desconexão, um sintoma comum, mas pouco discutido, das trajetórias migratórias. 

A transição entre o “paraíso” caribenho e a rotina europeia revelou uma face pouco discutida das trajetórias migratórias: a desconexão emocional. Mesmo com a família por perto, Darianyi descobriu que a identidade não se transfere automaticamente com um carimbo de residência.

A sensação de estar “fora de lugar” foi tão latente que interrompeu o plano inicial. Após dez meses de tentativas, a decisão de voltar para casa não foi apenas uma questão financeira, mas uma vontade identitária. 

“Voltei para meu país porque a minha mãe me dizia que a universidade lá era mais barata. Mas também foi pelo fato de não me sentir confortável. Passei por um processo em que não tinha amigos nenhuns, sentia-me muito sozinha. Dez meses sozinha é demasiado… então, regressei”, explica Darianyi. 

Mesmo com a família por perto, faltavam vínculos próprios. Sem amigos e sem uma rotina familiar, o sentimento de pertencimento parecia inalcançável.

O retorno à República Dominicana, dez meses depois, teve razões financeiras mas, sobretudo emocionais. O retorno, contudo não encerrou sua história; apenas provou que o processo migratório raramente acontece em linha reta.

Cidade Cuenca, Espanha (2025) – Foto: Yumi Aoki

O segundo começo: Cuenca como novo lar 

Anos depois, o desejo de cursar Comunicação Audiovisual trouxe Darianyi de volta à Espanha. Desta vez, a chegada foi diferente: havia autonomia, clareza e uma compreensão maior sobre o que significava migrar de país. 

Hoje, Dariayani vive em Cuenca, no interior da Espanha, ela divide sua rotina entre os estudos e o trabalho em uma pizzaria, construindo gradualmente sua própria rede social. Diferentemente da primeira vez, ela vive sozinha e mais responsabilidades estão em jogo. 

Essa nova fase exigiu uma adaptação à cultura, principalmente,  às pessoas.

“A cultura é muito diferente. Lá [na República Dominicana] conversamos com qualquer pessoa na rua. Aqui, as pessoas são mais fechadas”, compara.

Para ela, a integração exige estratégia:

“Aqui, se não estás num grupo, num clube ou na universidade, as pessoas não te falam na rua. É muito diferente da América Latina. Custou-me um pouco mais, mas com o tempo o estranhamento passa a ser aprendizagem.” conta a dominicana.

Um movimento coletivo

A história de Darianyi dialoga com um fenômeno que está redesenhando o mapa da Espanha. Em janeiro de 2025, o país alcançou o maior número de habitantes de sua história, ultrapassando 49 milhões.


Este crescimento não é orgânico. Segundo a Estatística Contínua de População, 87% desse aumento foi impulsionado por estrangeiros. No último trimestre de 2024, enquanto a população nativa diminuiu em mais de 20 mil pessoas, a população estrangeira cresceu em mais de 136 mil. 

Os novos fluxos têm origens diversas: Colômbia, Venezuela, Marrocos, Honduras e China lideram a lista de quem chega para “rejuvenescer” o país.

Trabalho: O paradoxo entre a necessidade e a barreira

A urgência que une quase todos os fluxos migratórios na Espanha atende por um nome: inserção laboral. O país vive um paradoxo demográfico e econômico.

De um lado, a sustentabilidade da Seguridade Social depende diretamente da força de trabalho estrangeira, que já soma mais de 2,6 milhões de afiliados. De outro, as barreiras de entrada permanecem altas.

Embora o crescimento econômico espanhol dependa desses novos braços, o sistema muitas vezes empurra o imigrante para a informalidade ou para postos de alta rotatividade. A taxa de desemprego para este grupo ocupa os 16%, um número que esconde dificuldades que vão além da

Para quem consegue transpor a barreira do primeiro emprego, o desafio ganha contornos de hostilidade silenciosa.

Natalia Lineth Anaya, colombiana de 21 anos que também escolheu Cuenca para recomeçar, sentiu na pele que o esforço exigido de um imigrante costuma ser dobrado.

Em seu primeiro emprego, Natalia não enfrentou apenas a dureza do trabalho físico, mas a dor da diferenciação. Enquanto os colegas espanhóis seguiam uma rotina padrão, para ela, a exigência era mais rígida.

“Recebia mais tarefas por ser latina. Falavam comigo de forma rude, diferente de como tratavam os espanhóis. Foram quatro meses para conseguir esse primeiro emprego e, quando consegui, a realidade foi muito difícil”, relata Natalia.

A trajetória dela expõe uma ferida aberta na integração: a falta de redes de contato e o estigma cultural transformam a busca por estabilidade em um percurso incerto, onde o imigrante muitas vezes precisa aceitar condições desfavoráveis para garantir o direito de permanecer.

Memória: Um país que já partiu

Para compreender o presente de Darianyi e Natalia, a Espanha precisa olhar para o próprio passado. Durante o século XX, a nação foi um polo de emigração: milhares de espanhóis fugiram da miséria para trabalhar em lavouras na França e na Suíça.

A Espanha foi uma nação que viu seus cidadãos partirem em massa. A crise da agricultura tradicional e o fracasso da política autárquica do franquismo forçaram milhares a buscar trabalho no exterior.

Memória: um país que já partiu

Para compreender o presente de Darianyi e Natalia, a Espanha precisa olhar para o próprio passado.


Durante o século XX, a nação foi um polo de emigração: milhares de espanhóis fugiram da miséria para trabalhar em lavouras na França e na Suíça.

A Espanha foi uma nação que viu seus cidadãos partirem em massa. A crise da agricultura tradicional e o fracasso da política autárquica do franquismo forçaram milhares a buscar trabalho no exterior.

Entenda o que foi a ditadura franquista!

“A emigração temporária era como um grito silencioso, lançado por quem não tinha o mínimo para viver.”
Esteban Tabares, citado no livro Huir de la miseria

Entre os destinos principais estavam a França e a Suíça. Espanhóis trabalharam em lavouras de beterraba, arroz e uva, além dos setores de construção e hotelaria.

Em 1961, mais de 59 mil espanhóis atuaram como temporários na França. Na década de 1970, esse número ultrapassava os 100 mil por ano.

Esses fluxos migratórios tiveram impacto econômico e político. Muitos imigrantes investiram na construção de casas, na educação dos filhos e na abertura de pequenos negócios. Além disso, o contato com sociedades democráticas ajudou a despertar uma consciência crítica contra o regime franquista.

“Essas estadas no exterior mostraram que o modelo totalitário da ditadura tinha fissuras.”

Sergio Molina García, professor de História Contemporânea da Universidade de Castilla La-Mancha

O professor Sergio Molina lembra que negar essa história é negar a própria identidade do país.

“Negar a migração é negar a nós mesmos.”

Sergio Molina García, professor de História Contemporânea da Universidade de Castilla La-Mancha

A virada: de país de saída a país de chegada

Com a redemocratização e o crescimento econômico dos anos 1980, a Espanha se transformou em um destino para imigrantes.

A entrada na União Europeia, a expansão da construção civil e a escassez de mão de obra em setores específicos atraíram pessoas da América Latina, da África e da Europa Oriental.

“Hoje, a Espanha é um país de oportunidades. E somos um país com memória: também já fomos emigrantes.”
Elma Saiz, ministra da Inclusão, Segurança Social e Migrações

A ministra Elma Saiz destaca a importância de reconhecer esse passado migratório para construir uma sociedade mais justa e acolhedora. 

Em uma coletiva de imprensa na Faculdade de Comunicação de Cuenca, ela ressalta que a memória histórica é a chave para entender o presente migratório no país. Assista o vídeo completo com as declarações da ministra.


O cenário atual da imigração (2025)

De onde vêm os imigrantes?

Conforme dados da ECP/INE (Instituto Nacional de Estadística), os principais países de origem dos novos imigrantes na Espanha incluem:

Algumas dessas nacionalidades também aparecem entre as que mais deixam o país:
Marrocos – 12.300 saídas
Colômbia – 11.900
Romênia – 9.900

Mesmo com essas saídas, o saldo migratório permanece positivo.

Regiões com maior crescimento

Segundo o INE, o crescimento da população estrangeira está concentrado nas áreas com maior atividade econômica. As comunidades autônomas que mais cresceram no último trimestre de 2024 foram:

Comunidade Valenciana: +0,47%
Madri: +0,44%
Catalunha: +0,34%

Essas regiões continuam a atrair novos residentes, que buscam melhores oportunidades de emprego e qualidade de vida.

Perfil dos imigrantes

De acordo com o Observatorio Permanente de la Inmigración (OPI), a maioria dos imigrantes na Espanha são homens (52%), seguidos por mulheres (48%). A diferença é mais acentuada entre menores estrangeiros não acompanhados ou ex tutelados, com idades entre 16 e 23 anos: 93% são homens.

Autorização de residência

Segundo o OPI, com dados de 2022, a Espanha contava com 6.493.147 pessoas com autorização de residência vigente.

Naturalizações em alta

De acordo com o Instituto Nacional de Estadística (INE), desde 2009, mais de 1,6 milhão de estrangeiros adquiriram a nacionalidade espanhola por tempo de residência. Em 2022, foram 124.300 novas cidadanias, sendo 52% concedidas a mulheres.

Inserção no trabalho e na educação

Conforme dados do OPI/MI (Ministerio de Inclusión, Seguridad Social y Migraciones), até setembro de 2023, a Espanha registrava 2.693.087 estrangeiros afiliados à Seguridade Social, com 56% homens e 44% mulheres.

No setor educacional, havia 63.030 estudantes estrangeiros com autorização para estudos, sendo 57% mulheres.


Entre a chegada e a inclusão

Esse cenário é o que fundamenta o trabalho de instituições como a Cruz Vermelha em Cuenca, que é referência no acolhimento de solicitantes de refúgio.

Calina Liliana Morar, Responsable Provincial Protección Internacional y Migrantes, acompanha pessoas de países como Síria, Venezuela, Mali, Colômbia e Honduras.

A instituição oferece aulas de espanhol, capacitação profissional e apoio na inserção laboral. Mas o caminho não é simples.

“Ensinamos desde como abrir uma conta bancária até como marcar uma consulta médica. São aprendizados fundamentais para viver aqui.”
Calina Liliana Morar, Cruz Vermelha

Um dos maiores desafios, segundo ela, é encontrar moradia. Muitos proprietários exigem contratos de trabalho e rendimentos formais que os imigrantes ainda não têm como comprovar.


E como o governo atua diante dessa realidade? 

Diante de uma demografia em mutação, o governo espanhol reconhece que a integração dos imigrantes não é apenas uma questão humanitária, mas um imperativo para o futuro do país, especialmente no que tange à sustentabilidade do mercado de trabalho.

A ministra de Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz, ressalta que a presença estrangeira é a resposta necessária ao envelhecimento populacional da península.

Para a ministra, o desafio do governo ultrapassa a gestão de fronteiras, trata-se de um compromisso com a coesão social.

“Não se trata apenas de acolher. Trata-se de construir um projeto comum, com justiça social e dignidade”, explica Elma Saiz.

Durante a sua intervenção, a ministra reforçou que a prosperidade da Espanha está intrinsecamente ligada à sua capacidade de ser inclusiva. Segundo ela, o país só alcançará pleno desenvolvimento se souber respeitar, valorizar e integrar aqueles que chegam. Essa postura, defende Saiz, é sustentada por um forte componente histórico.

“Nós, espanhóis, também fomos migrantes. Temos memória. E essa memória obriga-nos a ter empatia”

afirmou Saiz, conectando o presente migratório às feridas ainda abertas do passado espanhol.

Além do reconhecimento simbólico, o governo aponta para medidas efetivas de combate à xenofobia e à discriminação, buscando garantir que a trajetória de jovens como Darianyi e Natalia deixe de ser uma sucessão de barreiras e se torne um caminho de direitos plenos. Confira no vídeo!


O preconceito que não se vê, mas se sente

O historiador Sergio Molina observa um fenômeno perigoso: a normalização da xenofobia. Não são apenas os discursos explícitos, são as microagressões do dia a dia, as portas que não se abrem, a desconfiança constante.

“Existe uma tendência preocupante: culpar o imigrante por problemas que não são seus.”, explica o professor

Molina explica que os discursos de extrema direita encontram espaço em momentos de instabilidade. Usam o medo como combustível. Criam, com base em desinformação, a ideia de que os imigrantes ameaçam empregos, segurança e serviços públicos.

A realidade, porém, mostra o oposto: os imigrantes são essenciais para a economia, sustentam o crescimento populacional e ocupam funções que muitas vezes os espanhóis não querem exercer.

O professor alerta que é preciso combater a desinformação com dados e empatia. E lembra que o contato dos espanhóis com democracias europeias, durante o período em que emigraram, foi essencial para o fim da ditadura franquista.

“Essas estadas no exterior mostraram que o modelo totalitário da ditadura tinha fissuras.” ressalta o historiador.

Para ele, falar de migração é falar da própria identidade espanhola. O passado de emigração precisa ser lembrado para que o presente de imigração seja compreendido com mais humanidade.

A seguir, o professor Sergio Molina também analisa as tendências migratórias para os próximos anos e destaca os desafios que o país deve enfrentar. 


Migrar é um ato de esperança

Recentemente, o governo espanhol anunciou um plano de regularização que pode beneficiar mais de 500 mil imigrantes. É uma promessa de direitos, mas Darianyi sabe que a legalização é apenas uma parte da jornada.

“Sinto falta da minha família, da minha avó, da comida, do calor das pessoas… mas a segurança aqui me conquistou. Adoro caminhar pela rua sem temer que algo me aconteça. Estou aberta tanto a ficar quanto a ir embora, vou decidir quando terminar a faculdade.” ressalta a dominicana.

Darianyi, que já tentou ir embora uma vez, decidiu ficar e lutar pelo seu espaço. Sua trajetória resume a de tantos outros que vivem entre a tentativa e a permanência. A experiência migratória não termina com o carimbo no passaporte; ela se renova a cada turno na pizzaria, a cada aula na universidade e na construção de vínculos em um novo solo.

VIDEO = CONSELHO DE DARI

Para quem vive entre fronteiras, a questão nunca foi apenas chegar, mas conseguir permanecer com dignidade. Como define a própria Darianyi ao resumir sua experiência em uma única palavra: “Emocionante”. Pois, no fim das contas, a migração é a manifestação mais pura da esperança, o desejo humano por dignidade.

“A migração é uma manifestação de esperança. Um desejo humano por dignidade.”

Esteban Tabares, citado no livro Huir de la miseria